A Osteopatia e a Visão

A visão é considerada um sentido maior. Algo tão precioso que nos permite ver o mundo tal como ele é. Isso, sem dúvida, tem um valor inestimável.
Com o avançar da idade, é normal a degenerescência de inúmeras funções orgânicas, incluindo a visão. Por volta dos 40 anos, é comum surgirem os primeiros sintomas da presbiopia – dificuldade em ver as imagens ao perto, dor de cabeça e vista cansada. Devido à perda de elasticidade do cristalino e à diminuição da flexibilidade dos músculos oculares, o olho tem dificuldade em focalizar os objetos que lhe estão mais próximos. A partir do aparecimento desses sintomas, é frequente recorrer-se a uma consulta de oftalmologia.
No entanto, existem alterações da visão que podem estar relacionadas com perturbações de outros sistemas orgânicos – o sistema vestibular (ouvido interno), o sistema musculoesquelético (tornozelos, pés, coluna vertebral, músculos e tendões) e a articulação temporomandibular. Muitas vezes, os sintomas que o paciente apresenta confundem-se e interrelacionam-se, sendo em alguns casos necessário recorrer-se à realização de exames complementares de diagnóstico para aferir-se a causa dos mesmos. O que acontece, na maioria das vezes, é a inexistência de alterações nos exames realizados (RX, TC, análises clínicas) e nos testes médicos, que justifiquem as referidas queixas e daí a dificuldade de se adotarem medidas terapêuticas. Mas o paciente continua com as queixas e resiste aos medicamentos habitualmente utilizados para este tipo de sintomas – analgésicos, antivertiginosos e estimulantes cerebrais.

 

Sintomas Comuns Associados a Alterações da Visão:
Existem muitos sintomas que, mesmo não estando diretamente relacionados com a visão, podem traduzir perturbações de sistemas orgânicos que afetam indiretamente a perceção visual. Entre eles, incluem-se:

 

Perturbações do equilíbrio
Tonturas, sensação de enjoo – náusea, sensação de embriaguez, vertigens, descoordenação motora, quedas sem justificação.

 

Dores de diversa localização
Cefaleias (dores de cabeça) que podem atingir a forma de enxaqueca, dores na coluna vertebral, dores nos braços e nas pernas, dores intercostais, ciática, dores musculares associadas a fadiga crónica.

 

Perturbações psíquicas
Ansiedade, depressão, ranger dos dentes durante o sono, dificuldade em utilizar elevadores, frequentar grandes superfícies, orientar- se na rua e no metro, estacionar o automóvel e exercer todo um conjunto de atividades que exija uma boa perceção do espaço que os rodeia.

 

Dificuldades de aprendizagem

Dificuldades de atenção, concentração e memorização, dificuldade na leitura (dislexia), dificuldade em conseguir longos tempos de leitura, erros na escrita (disortografia), leitura irregular (disgrafia), dificuldade em perceber o que ouve (surdez ou atraso de perceção auditiva), fadiga persistente e/ou hiperatividade.

 

A importância da Postura e a Visão
A estabilidade da postura corporal está dependente de três sistemas – os sistemas somatossensorial, vestibular e visual. Só quando se verifica uma interação adequada destes sistemas é que o organismo pode adquirir a capacidade de posicionar-se e interagir adequadamente com o meio envolvente.
Existe uma relação entre a visão e a postura, que interfere com o equilíbrio do indivíduo e a interação entre o corpo e o ambiente, pelo que se torna importante detetar as alterações posturais decorrentes das aferências visuais e vice-versa.
Esta interdependência entre visão e postura justifica as alterações que decorrem em cada um dos sistemas e a forma como cada um pode afetar o outro.
O sistema visual possui relações significativas com o controle postural. Isto porque, no sistema visual, a retina é sensibilizada por ondas eletromagnéticas visíveis que por sua vez são transmitidas ao córtex visual, localizado na região occipital, determinando modificações do tónus e da postura. A estabilidade da postura corporal também está dependente de outros sistemas orgânicos.
Assim, os problemas de visão podem afetar a postura, tal como os problemas de postura podem afetar a visão.
A postura corporal também pode ser expressão de alterações psicológicas (stresse emocional, depressão). Um indivíduo desanimado ou deprimido adota uma postura fechada e tensa, cabisbaixa, com os ombros avançados e braços caídos para a frente, o esterno retraído e as costas encurvadas. Isto afeta o equilíbrio postural e a própria perceção visual. A adoção de posturas corporais incorretas baralha a perceção que o cérebro tem da posição das diferentes partes do corpo. Esta alteração da orientação
espacial leva a que o cérebro passe a dar ordens erradas a diversas estruturas do organismo, interferindo com o estado de contração ou relaxamento de vários músculos e afetando todo o esqueleto.

 

A Síndrome de Deficiência Postural
No início dos anos 60, o médico Luís Carpinteiro, especialista em Reabilitação Funcional, começou a abordar o tratamento de doentes que apresentavam lombalgias (dores na região da coluna lombar) de uma forma peculiar. Em vez de os submeter a terapêuticas com agentes químicos ou físicos, colocava-os diante de um espelho para que pudessem ter consciência do seu corpo e mostrava-lhes como corrigir a postura.
A eficácia desta técnica sobre a dor tinha excelentes resultados e a sua experiência clínica contribuiu para evidenciar um conjunto de sinais clínicos comuns.
Em 1979 foi publicada em França, pelo médico Henrique Martins da Cunha, a Síndrome de Deficiência Postural (SDP).

A SDP é a designação para o conjunto de sinais e sintomas relacionados com as alterações da postura corporal e engloba a dor (dores musculares persistentes, cefaleias, nevralgias), o desequilíbrio (vertigens e perda de equilíbrio) e a dificuldade de aprendizagem. Assim como muitos outros sintomas como a deficiência circulatória, náuseas, vómitos, desorientação espacial, fadiga injustificada, limitação de movimentos articulares, dificuldades de localização exata de cada segmento do corpo, dificuldade em articular palavras, em perceber o que se ouve, quedas e acidentes sem explicação plausível.
O autor verificou que a maioria dos pacientes tinha alterações na forma como se posicionavam e também como percecionavam o corpo. Embora nem todos os casos possuíssem o quadro clínico completo, todos eles tinham em comum uma dificuldade de perceção do próprio corpo.

 

Proprioceção “o sexto sentido”
Existem cinco sentidos clássicos que todos conhecemos e que basicamente informam o nosso cérebro sobre a perceção da realidade exterior. Existe, porém, um “sexto sentido”, que informa o cérebro sobre o que se passa no nosso corpo. Trata-se da Proprioceção que, estando integrada a nível global no organismo, forma o Sistema Propriocetivo.
A SDP descrita pelo médico Martins da Cunha é na sua essência uma desregulação do sistema propriocetivo, produzida por erros posturais sistemáticos. O cérebro acaba por interpretar esses erros como normais e organiza-se em função deles. Instala-se assim um programa cerebral incorreto que bloqueia circuitos neurológicos e produz ações erradas a nível dos diversos efetores do nosso organismo.

Estima-se que 10% da população portuguesa apresente a SDP, recorrendo a diversas consultas de especialidade médica convencional (Oftalmologia, Neurologia, Otorrinolaringologia, Psiquiatria, etc), sem que obtenha uma solução e manifestando alterações que interferem com a qualidade de vida.
Compreende-se assim que não se encontrem lesões orgânicas e que as localizações dos sintomas sejam múltiplas, sendo difícil o diagnóstico.

 

Reprogramação Postural
A reprogramação postural é uma técnica que foi desenvolvida por Martins da Cunha e que consiste num reposicionamento dos diversos segmentos do corpo, através de técnicas posturais adequadas, associado a um conjunto de manobras e conselhos a praticar na vida corrente destinados a normalizar o sistema propriocetivo.
Através desta técnica, é possível eliminar a maioria dos sintomas apresentados pelos pacientes.

 

Como a Osteopatia pode ajudar?
As alterações da visão podem estar relacionadas com alterações das curvaturas da coluna vertebral (escolioses, lordoses e cifoses), que interferem com o fluxo de energia nervosa que chega ao cérebro e que afeta o equilíbrio. A osteopatia, através das manipulações vertebrais, permite o desbloqueamento de subluxações e de desalinhamentos das vértebras cervicais, melhorando a condução nervosa que controla a visão, a audição e o equilíbrio.
As técnicas osteopáticas permitem um alinhamento da coluna vertebral, reequilibrando a postura e melhorando a perceção do corpo em geral.
A massagem osteopática permite uma diminuição da tensão nervosa, da tensão muscular dos ombros, região cervical e inserções dos côndilos occipitais, melhorando a circulação à região do crânio, com consequente aumento da irrigação no globo ocular. É comum os pacientes que recorrem aos tratamentos de osteopatia referirem a diminuição da sensação de vista cansada, da sensação de peso nas órbitas oculares e verificarem a melhoria da visão.

 

A Visão e o Computador
O uso generalizado do computador, como ferramenta indispensável no trabalho, é uma das causas que contribui para o aparecimento de inúmeros sintomas associados à postura e à visão. São frequentes as queixas de ardor, irritabilidade e olhos vermelhos (congestionados) e cefaleias e dor nos olhos (sensação de dor e peso nas órbitas oculares), com a sensação de desconforto ocular, especialmente ao fim do dia.
A principal razão é a fixação do olhar num ponto por períodos prolongados e o esforço muscular para manter os olhos convergentes no monitor, gerando a diminuição do reflexo de piscar (mecanismo involuntário que ajuda a lubrificar o globo ocular) e contribuindo para o cansaço da musculatura dos olhos e consequentes dores de cabeça.
Outro fator que desencadeia a fadiga ocular é o meio envolvente, nomeadamente, o ar condicionado, que acelera a evaporação lacrimal e agrava os sintomas.
Para reverter os sintomas e queixas, é aconselhável consultar um oftalmologista para avaliar a necessidade de usar lentes corretivas, que contribuem para reduzir o esforço visual.
No entanto, a adoção de medidas de ergonomização que visem uma postura adequada ao computador, nomeadamente o ajustamento do monitor ao campo de visão, a posição da cadeira e o alinhamento dos braços na secretária, podem contribuir para a redução do esforço e da tensão muscular e para a melhoria da visão.

 

Como Melhorar a Acuidade Visual Através de Técnicas Naturais
Existem algumas técnicas que poderão contribuir para a melhoria da visão.
Existem inúmeras referências a exercícios simples que poderão contribuir para a melhoria da visão. A realização de exercícios específicos para os olhos (pequenos movimentos), nos intervalos do trabalho ao computador ou em casa, pode ajudar a relaxar a musculatura ocular e melhorar a acuidade visual.
Pode começar por pequenos gestos, como fazer pausas para relaxar os ombros e respirar profundamente, olhando para o horizonte, para uma paisagem ou simplesmente fechando os olhos.
Apesar dos malefícios das radiações solares, os olhos alimentam-se de luz e, por isso, os banhos de luz podem ajudar a descontrair a mente e o corpo.
As técnicas de relaxamento e respiração abdominal e diafragmática promovem o aumento da oxigenação ao globo ocular e podem trazer muitos benefícios ao corpo em geral.
A automassagem e as técnicas do DO-IN na região da cabeça, olhos, seios frontais e perinasais e na região da nuca, ombros e cervical, podem ajudar no relaxamento visual.

 

A Perspetiva Holística da Visão
O corpo humano é uma unidade completa em termos biológicos, emocionais e espirituais. Toda a perturbação que se produz numa determinada região do corpo, poderá manifestar-se em qualquer outra parte do corpo.
As alterações da visão são uma expressão da degenerescência ocular, mas especialmente da desregulação do equilíbrio psiconeurofisiológico.
As perturbações da visão também poderão traduzir alterações psicossomáticas. O modo como percecionamos as coisas e o mundo que nos rodeia, pode autolimitar-nos e interferir com a visão. Pois só vemos aquilo que queremos ver. Se temos dificuldade em lidar com o presente, podemos ter dificuldade em ver de perto. Se temos dificuldade em vislumbrar o futuro, podemos ter dificuldade em ver ao longe.
A influência da componente psíquica (fadiga psíquica, stress emocional, desmotivação) pode interferir no enfraquecimento da visão. Quando estamos descontraídos e otimistas a nossa visão está muito melhor.
A importância desta abordagem holística em termos oftalmológicos pode contribuir para a prevenção e tratamento de inúmeros sintomas que afetam a sua qualidade de vida e que, muitas vezes, não sendo mensuráveis pelos exames complementares de diagnóstico, podem estar relacionados com alterações ao nível de outros sistemas orgânicos.
Se manifestar alguns dos sintomas acima descritos, que possam afetar o seu equilíbrio, consulte especialistas nas áreas da oftalmologia, otorrinolaringologia, medicina dentária, podologia ou osteopatia, pois os seus problemas de visão poderão estar relacionados com uma ou mais partes do corpo.

 

por: Manuel da Fonseca – Osteopata